Sunday, March 09, 2014

ASTRONAUTA SEM PLANETA - UM CONTO

     Era tarde de férias. Ela,  sem fazer nada e com aquele velho habito de entrar em chats para conhecer novos amigos. Ele, num chat à espera de um colega de trabalho que não apareceu como o combinado. Ambos na mesma sala, sem sonhar com o que aquela telinha lhes reservava.
     Um astronauta ele se intitulava. Um astronauta sem planeta. Tornaram-se  muito amigos e muito próximos e conquistaram  uma ligação muito forte. Ele era uma pessoa muito poética e talvez a mais sensível que ela já havia conhecido. Seu vocabulário, comprovam as cartas que ele lhe escrevia, era de um Lord. Um cavalheiro de outro século com pensamentos e ações que estão longe de serem encontradas em alguém comum.
     Ela chegou a acreditar que ele era mesmo um ser de outro planeta e se dizia  astronauta porque aqui ele se sentia  fora da sua verdade essência. Realmente um ser de outra espécie.
     Trocavam cartas de 3, 4, 5 páginas. Descreviam o que estavam passando, vivendo  e sentindo. Com o tempo ele foi demonstrando um interesse maior por ela e nela,  sem  saber, algo também crescia por ele.
     Mas ela demorou a perceber e por medo de algo desconhecido, ela o afastou.
     Quando percebeu que o amava, tentou recuperar o que havia perdido. Conversaram, deixaram tudo muito claro, mas o tempo e os acontecimentos não foram amigáveis e infelizmente, eles se separaram.
     Muitos anos ficaram distantes e após muitos idades e vindas seus caminhos voltariam a se cruzar.
     Ela ainda sozinha. Ele com uma desilusão por um casamento mau sucedido que quase o matou.
     Tomaram um café. Mas ela nada sentiu. Onde estava aquela velha sensação de nervoso? Aquela borboleta no estômago que faz faltar a respiração? Onde estavam as mãos trêmulas e inquietantes e os olhares profundos dos dois?
     Dele nada saiu. Nem um toque, nem um olhar. Os dois se despediram e este foi seu último encontro cara a cara. Ela estava triste. O amor  foi embora? De ambos os lados?
     Ela procurou por respostas. releu as cartas, tentou retomar fotos que nunca conseguiu. Ela então desistiu.
     Cansada daquela exaustão de sentimentos ela quis tentar extingui-los queimando alguns e-mails,  o que o deixou muito magoado. Ele não havia entendido a poética, o simbolismo que foi para ela, queimar os e-mails para tentar com aquilo, queimar também aquilo que a estava sufocando. Acredita-se que isto tenha colocado um fim na única e minúscula relação que havia entre eles.
     Ele lhe escreveu contestando. Ela lhe  respondeu explicando. Tudo ficou por isso mesmo e acabou por não ter mais continuidade. Talvez o fogo tenha feito a sua tarefa e hoje o que resta é só a saudade.
     Ela acompanhava a trajetória do astronauta. Às vezes relia as cartas e e-mails que ainda tinha guardados numa pasta. Às vezes  via as fotos.  Se sentia só. Sentia um vazio por não ter mais aquele astronauta tão diferente em seu mundo. Sentia  falta de ter alguém com quem conversar com a mesma intensidade, a mesma linguagem bela e poética, o mesmo idioma.
     Dias, meses, anos se passaram e de repente o velho astronauta sem planeta, rodeou e encontrou um planeta lindo, especial. O planeta que lhe cabia, que ele  merecia.
     Ela sentiu por de repente ver que perdeu o melhor dos melhores de sua espécie. Ela se sentiu sempre agradecida a Deus, pela felicidade que foi entregue ao astronauta. Ela sabia que ele  realmente merecia, pois ela nunca deixou de acreditar que  encontraria um planeta.
      Ela seguiu orbitando estrelas e alguns planetas sem vida. Ela sonhou tanto encontrar  outro astronauta, mas parece que a espécie foi devastada e ela nem poderia se aproximar do último da espécie. Ele já tinha um planeta e nunca mais viria a orbitar outro, nem como passagem, nem como amigo.
      Então ela continuou viajando. Se tornou ela a  astronauta sem planeta...orbitando planetas estranhos sem nenhum sucesso. Orbitou  por  longos e longos tempos, até que um dia......

......CONTINUA.....

__________________________________ O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos. (Elleanor Roosevelt)


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